
Pensava que já houvesse me despedaçado antes mas, naquele momento, minha vida realmente virou um caos. Hoje me envergonho de pensar no que impus durante aqueles meses em que ficamos juntos. Imaginem sua surpresa ao descobrir que a mulher mais feliz, mais confiante que ele já conhecera na verdade era – quando você ficava sozinho com ela – um poço sem fundo e enlameado de tristeza. Mais uma vez, eu não conseguia parar de chorar. Foi então que ele começou a recuar, e foi então que eu vi o outro lado do meu apaixonado herói romântico – solitário como um náufrago, frio e que precisava de mais espaço para viver.
O súbito recuo emocional dele provavelmente teria sido uma catástrofe para mim até mesmo nas melhores circunstâncias, já que sou uma das formas de vida mais afetuosas do planeta, mas aquelas eram as piores circunstâncias possíveis para mim. Eu estava insegura e dependente, e precisava de mais cuidados que trigêmeos prematuros. Seu afastamento só me fez tornar mais carente, e minha carência só fez acelerar seu afastamento, até que, em pouco tempo, ele recusava debaixo de uma chuva de gritos chorosos meus: “Aonde você vai? O que aconteceu com a gente?”
O fato é que eu havia me viciado nele (em minha defesa, posso dizer que ele havia possibilitado isso, já que era uma espécie de homem fatal) e, agora que sua atenção estava desaparecendo, sofria as conseqüências facilmente previsíveis. O vício é a marca de toda história de amor baseada na obsessão. Tudo começa quando o objeto de sua adoração lhe dá uma dose generosa, alucinante de algo que você nunca ousou admitir que queria – um explosivo coquetel emocional, talvez, feito de amor estrondoso e louca excitação. Logo você começa a precisar dessa atenção intensa com a obsessão faminta de qualquer viciado. Quando a droga é retirada, você imediatamente adoece, louco e em crise de abstinência (sem falar no ressentimento para com o traficante que incentivou você a adquirir seu vício, mas que agora se recusa a descolar o bagulho bom – apesar de você saber que ele tem algum escondido em algum lugar, caramba, porque ele antes lhe dava de graça). O estágio seguinte é você esquelética e tremendo em um canto, sabendo apenas que venderia sua alma ou roubaria seus vizinhos só para ter aquela coisa mais uma vez que fosse.
Enquanto isso, o objeto de sua adoração agora sente repulsa por você. Ele olha para você como se fosse alguém que ele nunca viu antes, muito menos alguém que um dia amou com grande paixão. A ironia é que você não pode culpá-lo. Quero dizer, olhe bem para você. Você está um caco, irreconhecível até mesmo aos seus próprios olhos.
Então é isso.
Você agora chegou ao ponto final da obsessão amorosa – a completa e implacável desvalorização de si mesma.
COMER, REZAR, AMAR - ELIZABETH GILBERT.
ITÁLIA, CONTA 5, PÁGINAS 28 E 29.

