segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Garota no Espelho.




Tem uma garota no meu espelho. Eu me pergunto quem ela é. Às vezes eu acho que a conheço. Às vezes, eu realmente gostaria de conhecer. Ela só aparece quando eu estou sozinha, e então seus olhos contam mil histórias, canções de ninar e adeus. Mas quando eles me encaram de volta, eu posso facilmente dizer que algo mudou.

Se eu pudesse, diria a ela para não ficar com medo. Tudo o que ela está sentindo vai passar, assim como já passou antes. Eu sei que nada funciona assim fácil, mas o amor vai encontrá-la e fazer com que o sentimento de solidão e dor passem. Seus olhos suplicam por minha ajuda, mas minhas palavras não conseguem chegar a ela.

Eu levanto minha mão, e ela faz o mesmo. Nossos dedos se encostam, mesmo separados pelo vidro fino. Voltamos a nos encarar, agora com as mãos unidas, enquanto, chega a ser palpável no ar, o alívio sentido pela conexão estabelecida entre nossos corações preenche a sala. Foi quando eu tive certeza que a única maneira de ajudar a garota no meu espelho, seria ajudar a mim mesma primeiro.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A pior doença.




Eu me curei.

Não choro mais por um amor não correspondido. Em fato, morro de vergonha só em pensar que isso já aconteceu, e tenho vontade de me esconder de mim mesma. Eu não quero mais voltar no tempo, embora guarde os momentos com carinho. Guardo-os, mas bem fundo, em uma caixinha empoeirada que nunca mais vai ser aberta. Só sei que estão lá, mas não conseguiria entrar em seu mundo nem que eu quisesse.

Eu sou grata pelo aprendizado, mas somente isso. Hoje, sei que foi uma lição que eu consegui aprender, apesar de não ter tirado de letra logo na primeira vez. Oro para que eu não tenha sido a única a ter completado meu dever de casa com eficiência e a ter aprendido valiosas lições.

Não é como um alcoólatra que se livra da bebida. Não foi querer mas não poder, sentir necessidade mas saber que é melhor parar – não há espaço para recaídas. Foi como alguém ter se curado de um câncer após muita quimioterapia e dor. Era um tumor que se alimentava de mim, e eu podia escolher deixá-lo me devorar, o que seria incomensuravelmente mais fácil, ou tirá-lo a todo o custo.

Sinto-me acordando de um coma profundo. Eu quis lutar, e eu me libertei.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Eu nunca vou me esquecer do dia em que passei no vestibular.




Eu nunca vou me esquecer do dia em que passei no vestibular. Primeiro porque não era qualquer vestibular; era o vestibular 2009 da Universidade Federal de Santa Catarina, no curso de Nutrição, cuja demanda estava 10.65 candidatos não-optantes/vaga, o décimo primeiro curso mais concorrido, dentre setenta. Segundo porque ninguém acreditava plenamente que eu conseguiria, considerando que eu não trocava fins de semana por estudos, mesmo que Blumenau não tenha nada para fazer nos fins de semana. E terceiro porque foi o maior motivo de orgulho que eu pude dar para os meus pais, meus amigos, e para mim mesma.

Meus olhos enchem de lágrimas só ao lembrar. Dia 29 de Dezembro, 14 horas. Enterrar a cabeça no sofá da sala nunca me pareceu tão agradável. Estava de olhos fechados, na esperança de que meu coração pudesse voltar a bater no seu ritmo normal. O computador estava fora de vista, e o meu nervosismo não me deixava ir até ele. Quando me pareceu ter passado tempo demais, meu celular toca, fazendo meu estômago desabar. Atendo temerosa.

Como pré-combinado, nenhuma pista foi-me dada. Parei de pensar por alguns minutos, enquanto tentava me distrair. Foi quando uma pitada de esperança de entrar na segunda chamada me atingiu que eu descobri que ela era desnecessária. E eu não podia querer alguma pessoa mais especial para me dizer que não, eu não precisaria mais aguardar, meu nome constava na tão temida e não mais maldita lista. Comecei a chorar, intensa e instantaneamente. Meu sorriso não cabia no meu rosto, muito menos o meu coração no meu peito, de tanta felicidade.

Corri para o quarto, para contar para as minhas irmãs e, logo após, veio a parte mais marcante: contar para os meus pais. Desci sete andares, atravessei a rua e toquei no ombro do meu pai, que se encontrava sentado de costas. Agachei-me, e disse:
- Pai, eu passei.
Papai chegou a interromper seu programa sagrado de fins de semana, o dominó, para ir comigo dar à notícia para a minha mãe, que estava do outro lado da rua, no prédio vizinho ao meu. Ele fora o único que acreditava que eu tinha chances de passar. Ele só errou que, ao invés de ser uma das últimas a entrar na primeira chamada ou uma das primeiras na segunda, estava vinte e seis posições – aproximadamente – acima do que ele imaginava.

Mamãe não acreditava que eu passaria. Depois do último dia de prova, quando conferi os três gabaritos e vi meu total de pontos – 50.1 – essa descrença, inclusive, me fez ir para o banheiro chorar por menosprezo. Contar para ela tornou tudo mais delicioso ainda. Ela estava surpresa, mas, acima de tudo, orgulhosa. Nunca poderei esquecer a imagem de suas expressões ao receberem a notícia. Não existe momento algum em que eu possa me sentir mais satisfeita por ter honrado meus pais quanto aquele.

Eu nunca vou me esquecer do dia em que passei no vestibular. Primeiro porque eu acabei conhecendo as pessoas mais especiais do mundo cursando Nutrição na Universidade Federal de Santa Catarina, cuja demanda estava 10.65 candidatos não-optantes/vaga, o décimo primeiro curso mais concorrido, dentre setenta, em 2009. Segundo porque eu passei a trocar meus fins de semana por estudos, apesar de estar morando em Florianópolis, uma cidade com inúmeras opções de locais para sair e se divertir, e não me importo nem um pouco por isso. E terceiro porque eu almejo encontrar orgulho muito maior para dar aos meus pais, meus amigos e a mim mesma, quando finalmente eu puder exercer a profissão que amo, estando dentre os melhores profissionais, coisa que eu vou lutar muito para que venha a acontecer.