
O maior erro foi você ter forçado a sua entrada no meu coração. Agora que estou passando por outra reforma na decoração, limpando a bagunça, trocando o velho pelo novo, as cores tristes por alegres e tirando o pó das emoções e fotografias que ficaram eternizadas, enxergo com mais clareza do que nunca, através da luz que entra pelas janelas fechadas, que abri a porta do meu coração muito cedo.
Há pouco mais de um ano, passei pelo processo estressante que é decidir o que importa, não importa mais ou nunca importou e preencher apenas uma ou duas caixas de papelão com o que não consegui me desfazer, e então limpar tudo, retirar tudo e preencher com coisas melhores, mais bonitas . Eu mal havia terminado de pegar tudo o que precisava e você apareceu. Bateu uma, duas, três vezes. E embora eu dissesse que não ia deixar você entrar, e ver a confusão em que tudo se encontrava apesar de o jardim não aparentar estar fora de ordem, já estava imaginando tudo o que você poderia ser e moldando, pintando e redecorando tudo de acordo com o que eu imaginava que, não só eu, mas nós dois iríamos precisar; bom humor, companheirismo, confiança, algumas festas e vários filmes com brigadeiro e morango. E quando eu percebi que realmente queria ficar não só um, mas dois, três, quatro, cinqüenta anos contigo, permiti tua entrada, e com isso, tua participação nas escolhas das cores das paredes, da foto que colocaria no porta retrato na mesinha ao lado da cama e qual lado do guarda-roupas você preferia guardar suas coisas.
Eu precisava de tons pastéis nas paredes, não rosa choque. Ocupar meio armário para guardar minhas coisas não era o suficiente, a bagagem emocional era muito grande, então ficou tudo mais ou menos atulhado e misturado. E quando imaginei por nós dois o que precisaríamos, ignorei a sua interminável e descontrolada vontade por festas e bebida, cuja dose valia mais que qualquer relacionamento ou pessoa, coisa que com o tempo você fez questão de mostrar não só para mim, mas para todo mundo. E tudo que havíamos passado, regado a lágrimas ou risos, não foi mais o suficiente.
Eu precisei recarregar minhas energias antes de conseguir mexer em tudo de novo, dormir do lado da cama que antes era seu, e enquanto isso, cada objeto lembrava um momento, um sentimento, e sua aparição pelo menos uma vez por semana não serviu de incentivo para trocar os móveis de lugar. Ao fim de quatro meses, com o coração mais ou menos reajustado e o sentimento nunca esgotado, abri as portas e os braços novamente, e as semanas que se passaram depois disso nunca fizeram tanto sentido e tudo foi como eu sempre planejei que fosse, os espaços sendo respeitados e o amor superando qualquer problema (e foram vários), e eu acredito que se não fossem os milhares de km que separaram a gente, nada teria mudado, nós não teríamos mudado, e principalmente, você.
Fechei as janelas e cortinas, e tranquei a porta de novo. Não quero que ninguém mais entre, não agora, não vai valer a pena se comparado ao projeto final que tenho em mente. Um projeto só meu, que quando estiver pronto para ser mostrado ao mundo, vou abrir as portas com o maior prazer e compartilhar com as pessoas que eu amo. Mas agora, tudo ao seu tempo.

2 comentários:
o cara q motivou essas 54 linhas deve está orgulhoso e regozijante com tamanha dedicatória...
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